segunda-feira, 7 de setembro de 2009

O eterno macho irracional

É impressionante a capacidade que as pessoas têm de se apaixonar... já perdi a conta das vezes em que me encontrei envolvida em tal situação. Não que eu tenha tido muitos amores, não vão pensar mal de mim, mas já tive alguns, fui alvo de outros e acompanhei muitos... e quantos... Sabem como é mulher, em qualquer idade, está sempre metida em casos amorosos, quando não os seus, os dos outros. A vida toda. Parece que nunca passa.
Os sentimentos são loucos. Ou nós todos somos. Tenho pensado que sentimentos são apenas burrice, quando não se convive bem ou quando não se vive bem sozinho se projeta em outra pessoa tudo o que se gostaria de ter para si. Não o que gostaria de ser. Mas o que se gostaria de possuir. Aí já começam os problemas! A possessividade que permeia os “sentimentos” entre os sexos é um de nossos maiores vilões. E praticamente é o essencial. Não sei se existe qualquer “sentimento” sem o mínimo de possessividade. E não digo apenas que é “você é meu”, ou “quem sabe o que é bom pra você sou eu, eu é que conheço essa raça (pode ser homem ou mulher)”.
Acho, sinceramente, que os demais prováveis problemas de uma relação tornam-se pequenos diante a possessividade. Ou mais que isso, são todos contidos nela ou continentes dela. O ciúme é possessividade pura. O egoísmo, ou egocentrismo, também pode ser demonstração de poder, se você pensa só em si, o outro deve viver em sua função, deve ser SEU servo.
Todos lutamos contra isso, apesar de sermos todos um pouco assim. E o que será que acontece se isso não está presente num relacionamento? Quase ninguém passa por isso na vida. Mesmo com toda a modernidade, que quebra os padrões até dos casos de amor, nos surpreendemos se nos deparamos com liberdade demais.
Imagina o que aconteceria com um rapaz de família tradicional que descobrisse, de repente, que a moça pela qual ele tem alimentado um grande sentimento há tempos – mas sem muitas esperanças – está interessada nele e disposta a fazer tudo para que eles fiquem juntos. O normal seria esse cara ficar feliz da vida e se entregar a esse amor finalmente correspondido, esquecendo as possíveis dificuldades que lhes aguardam. Mas, e se ela não for exatamente uma moça “normal”? E se ela for independente, livre, decidida e disposta a viver um relacionamento amoroso aberto, construído à base de diálogo, com cada um expondo suas emoções e questionando as do outro o tempo todo? E se ela não se importar com padrões, com nenhum deles, financeiros, etários ou hierárquicos? E se ela quiser sempre impressioná-lo, comprando presentes, pagando os jantares, ou simplesmente, fazendo convites – dos mais simples aos mais ousados?
Pode ser que esse protótipo – seja da idade que for – de eterno macho machista não compreenda a posição moderna e não-possessiva que sua anteriormente quase mulher-ideal tomou, a de futura mulher moderna-livre-compreensiva, que paga contas, que faz convites, que ousa dizer a ele na praia “Olha aquela garota ali, tem um corpaço, hein!”.
Complexo? Não, muito simples: os homens não evoluem, gostam de ser eternos homens das cavernas, toscos e irracionais, mas dominadores, daqueles que arrastam as mulheres pelos cabelos e o único som que as ouve produzir são pequenas manifestações de dor – quando puxadas pelos cabelos – ou de prazer, que dispensa comentários. E, aliás, estes são os únicos com os quais eles realmente se importam.
28 de Maio de 2004

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Tem que doer?

Saber o que se sente é ter noção do que se é, descobrir-se humano.
[E fraco.
Amor só é bom se doer, já dizia Vinícius...
[por isso, o amor impulsiona, mas desnorteia...
Uma paixão de verdade transforma a vida, os valores, o futuro...
[a paixão descabela...
Leva o indivíduo mais apagado a ser o mais brilhante,
[faz do mais tímido o melhor amante.
O amor faz transbordar o coração da vontade de doar-se
[sem pedir nada em troca, porque basta-se.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Me dá um tempo!

Oi. Espero que dentro do possível, esteja tudo em ordem. Preciso admitir que para mim as coisas não andam muito bem. Nem sei por que te escrevo, acho que já não há o que você fazer para me ajudar. Talvez se você tentasse me compreender, talvez se você conseguisse enxergar meus motivos, minhas dores e o porquê da minha pressa... é angustiante demais não saber onde chegar, não saber onde se está indo dá uma sensação horrível de insegurança. Por isso, brigamos tanto, você e eu. Quando quero ir devagar, você corre... e quando estou mais ansiosa, você se arrasta. Não consigo tomar as decisões que preciso, você me atropela. Não consigo fazer minhas escolhas, você as exibe para mim num piscar de olhos, a cada minuto, me traz uma novidade, nem sempre agradável...
Precisamos acertar nossos ponteiros, queria que você me desse um prazo para colocar a cabeça no lugar, não me apresse e não retarde meu caminhar... me acompanhe! Me deixe aproveitar cada segundo, sem ter que renascer todo dia...
Me dá um tempo, Tempo, eu preciso viver!

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Memória

Hoje pensei em criar um poema, estava subitamente inspirada... mas depois percebi que Drummond já havia escrito o que eu queria escrever... lindamente!

Memória

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.

Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.

Carlos Drummond de Andrade

domingo, 19 de julho de 2009

Nostalgia

Quero fugir de casa,
Falar sozinha,
Ter treze anos,
Rir de mim mesma,
Brigar coma prima,
Tio Cacá e seus mimos,
Quero camisa do Flu.

Quero aula todo dia,
Estudar pro teste,
Trabalho em grupo,
Meninos do básico,
OSPB, Moral e Cívica,
Hino na chegada,
Handball, ping-pong, teatro,
Quero prova do Senai.

Quero pedir que voltem
Legião Urbana, 93,
Barrados no Baile,
Ayrton Senna,
Quero Tande e Gigio.

Quero missa domingo,
Às 10, catecismo,
Quero crer que namoro.
Mas agora você,
Anos depois.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Canção do exilado em Minas

Minha terra tem pessoas
Onde cantam emoções.
O lindo sol que brilha aqui
Não aquece como lá.

Peregrinar todo dia
Sugere a eleição:
“Não existe lugar mais quente!”

Além do verão, mais três.
Diversão, proximidade e paixão.
Como se fosse o mínimo aceito: três.
Verões, desejos, águas...

Três Rios...

Na cidade dos calores é que eu sou em casa.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Ao Michael com carinho


O Michael Jackson morreu. Dããã, isso todo mundo já sabe. E foi tudo muito repentino e grandioso, até o velório que estão preparando para amanhã... há tantos mistérios e especulações que, a mim, fica a impressão de que o Michael vai ressuscitar no meio do funeral, executar seu moon walker e nada passará de um grande espetáculo. Quem dera! Infelizmente, lá no fundo sei que isso não é possível.

Mas, por mais estranho que isso possa parecer, o que mais tem me intrigado nisso tudo é o meu sentimento com relação ao Michael. Recebi a notícia pelo celular assim que foi confirmada pea primeira emissora de TV, e como todos transformei a informação em assustada pergunta: o Michael Jackson morreu??? E, após a confirmação, descobri que eu não sabia o que sentir a não ser supresa com a notícia, ele parecia imortal, talvez por conta de Neverland... Me assustei ao saber que eu parecia não me comover com a morte do Rei do Pop. E comecei então a pensar sobre Michael. O que eu sabia sobre ele? Do que eu gostava? Quem era Michael Jackson pra mim? Um menino negro que ficou branco e afinou o nariz, dançava como ninguém, foi acusado de pedofilia e era muito extravagante.

As notícias acerca da morte do cantor, não, cantor não, do astro, e as informações sobre sua vida e obra me traziam recordações que eu já perdera... e, por isso, nem sabia que as tinha. Passei uma semana concentrada em tudo que dissesse algo sobre Michael. Um dos acontecimentos que me fez começar a ter noção do que eu sentia por ele foi uma discussão travada com amigos, dias após a notícia da morte, sobre sua popularidade comparada com a da Madonna. Tenho certeza que, apesar de toda popularidade de Madonna, Michael era (e é) mais querido, há mais pessoas no mundo que admiram Michael porque ele é mais simples, porque ele é mais simpático, porque ele tem uma tragetória mais árdua e, ao mesmo tempo, brilhante, porque nem as histórias de pedofilia mancharam o sentimento que lhe era devotado.

Meu irmão, roqueiro convicto, passou a escutar as músicas do Michael todos os dias à tarde... gostei disso, eu não lembrava que aquelas músicas todas eram dele e que eu gostava de todas... aliás, um dos primeiros comentários que fiz sobre Michael após saber de sua morte foi que dentre todos os grandes sucessos do maior ídolo pop, eu parecia gostar mais da música Ben, do pequeno menino negro recém-saído dos Jackson Five... E adoro mesmo essa música! Mas não só essa, gosto de muitas outras, grandes sucessos que marcaram época no mundo e na minha vida...

Fiquei muito frustrada ao decobrir que Thriller era o disco mais vendido no mundo, que todas as músicas que o integravam eram maravilhosas e que eu nunca o tinha escutado, nunca tinha escutado qualquer música do Michael num ato voluntário: Agora vou ouvir Michael Jackson! Quem sou eu que nunca ouço Michael Jackson? Meu Deus, me senti completamente alienada.

Comecei a ver os clips que pipocavam em programas de TV... eu adorava todos e não sabia!!! Michael era mesmo um gênio da música e eu o ignorava!

Mas o que mais me comoveu foi ver as pessoas se referirem a Michael como a mais humana que conheceram, o melhor homem, o homem de grande coração, o atencioso Michael... comecei a prestar atenção às entrevistas reprisadas pela TV... e percebi que ali estava o que mais me encantava em Michael Jackson: o Peter Pan que vivia nele. Michael era uma criança que viu seu corpo crescer, tentou "consertar" o que lhe incomodava porque tinha medo de ser apontado como o feio, o esquisito, e que percebeu, como poucos, como é bom viver cercado por crianças e dar a elas todo carinho que há... porque retribuem da forma mais generosa, com a felicidade pura e espontânea.

Quando vi o Michael falando de sua infância, das surras do pai, das atitudes dos irmãos e afirmando diante de uma câmera que ele era mesmo o Peter Pan fui tomada por um comoção inédita na minha via, um misto de admiração e pena, finalmente a compreensão de tudo aquilo que era Michael Joseph Jackson... eu então começava a ter noção do meu sentimento....

Fique em paz, Michael e desculpe por precisar de sua morte para saber que você era realmente admirável, não apenas como o astro do pop, mas como o menino Michael. Mesmo aos 50 anos.

Michael Jackson is unbelievable!

domingo, 14 de junho de 2009

Que saudade!

Alguns anos já se passaram desde a minha Primeira Comunhão... lembrei-me disso poque hoje fui à missa de Primeia Comunhão de um afilhado (Estou envelhecendo mesmo!) e tentei me lembrar de como foi a minha... e quase nada me veio à memória, se considerarmos a importância do evento na vida da criança.
Conversando com uma amiga que se sentou ao meu lado, lembramos de nossas roupas da Primeira Comunhão... horrorosaaaas! Muito ruins mesmo! Seria muito mais interessante se fossem como as de hoje, uma espécie de batina branca, com direito a coroinha de flores, para as meninas, claro.
Olhando as crianças vestidinhas de branco sentadas lá na frente, lembrou-me o mal que passei pela demora da celebração, era verão, igreja lotada, a celebração já passava de duas horas e minha pressão baixa resolveu dar sinal... achei que ia desmaiar, mas consegui me segurar, graças à minha madrinha que trouxe um copo d'água.
Lembrei-me também do padre que celebrou, quer dizer, no meu caso, era um Frei, muito querido pela comunidade e que não vejo há anos... lembrando do Frei, me veio a confissão. Ele nos mandou escrever os pecados num pedaço de papel, imaginem isso! Eu, sentada num dos bancos, tímida que era aos dez anos de idade, achava aquilo ótimo, assim era mais fácil encarar o representante divino...
Mas a minha lembrança mais forte é do dia do ensaio da comunhão, dia em que as catequistas (da minha catequista não me lembro!) tentam "treinar" as crianças para que sejam comportadas, sigam os rituais da Santa Missa com exatidão e não as deixem envergonhadas diante da comunidade. A minha lembrança não é das músicas, dos ritos, e muito menos dos meus colegas (não me lembro de nenhum deles! Meu Deus que memória é essa??), mas de uma cena que nunca mais me esqueceu... eu sentada num dos bancos da Igreja, batendo os pés no chão de ansiosa que já era naquela época, resolvo olhar para trás... lá estava meu tio querido qu fora acompanhar o ensaio, meu tio Cacá, presença constante em cada momento da minha infância, talvez meu companheiro mais fiel, um dos meus amores mais fortes... e que papai do céu levou embora no ano seguinte!
Que saudade do meu tio!

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Sugestão de leitura

Sugiro que leiam A quinta história da Clarice Lispector, postado abaixo, antes de lerem a minha, visto que pretendi dar continuidade, ainda que muito humildemente,
ao texto da grande autora.

A (minha) quinta história


A quinta história chama-se “Leibnitz e a Transcendência do Amor na Polinésia”. Começa assim: queixei-me de baratas. E segue até o exato instante em que, vendo os monumentos de gesso, tenho certeza de que estão mortas. Porém, ao mesmo tempo, lembro-me de que estarão vivas nos canos da renovação, seguindo, em fila-indiana para novamente cumprir a saga. Assim, eu deveria mesmo renovar, ritualmente, aquele açúcar letal, todas as noites. E não conseguiria dormir enquanto não o fizesse. E mais que isso, estaria viciada em verificar a matança. Estremeci. Mas não de pensar no que primeiro me veio: que eu viveria, então, vida dupla, eu-mesma e eu-feiticeira, e sim de pensar que não há nada mais natural. Isso é o amor. Não, pensei, eu não estou louca. O amor é assim mesmo, duplo. Ambíguo. Alegórico, a melhor palavra. É por amor que ritualizamos as coisas: rezamos todas as noites por amor a Deus; por amor, passamos cremes e mais cremes antes de dormir. Senão por outra pessoa, por nós mesmos. É por amor que fazemos de nossas vidas dias cheios de ritos. De prece, de beleza, de sabedoria, de prazer... não importa de quê.

No entanto, como diria Leibnitz, a essência dos corpos não consiste na extensão, mas na força. Não eram importantes as baratas que transformei em estátuas, mas a força que me motivou o homicídio e que me faria me sentir melhor. E, pensando nelas, quem sabe não existe céu para as baratas? Aquelas, certamente, é para lá que vão, foram assassinadas fria e brutalmente, sem chance de defesa. Entretanto, não sou assassina, apenas alguém que ama mais a si mesma que às baratas. O ato sugere um assassinato, mas é uma forma de amor. A mim. E, otimistas, ainda como o filósofo, tudo vai da melhor forma no melhor dos mundos possíveis: no paraíso das baratinhas brutalmente assassinadas, elas descansam em paz, e eu, aqui em casa mesmo, apesar do rito, me alivio sem a presença delas.

Matar e amar. Matar por amor. Matar o amor?! Sim, penso, estou ficando louca. Matar alegoricamente. Filosoficamente amar. Era apenas uma forma de me livrar de baratas, sugestão de uma tal senhora que ouviu-me queixar, mas já estou quase resolvendo a questão da transcendência do amor na Polinésia...
Daniela Samira da Cruz Barros

sexta-feira, 22 de maio de 2009

A quinta história - Clarice Lispector

Esta história poderia chamar-se “As Estátuas”. Outro nome possível é “O Assassinato”. E também “Como Matar Baratas”. Farei então pelo menos três histórias, verdadeiras porque nenhuma delas mente a outra. Embora uma única, seriam mil e uma, se mil e uma noites me dessem.

A primeira, “Como Matar Baratas”, começa assim: queixei-me de baratas. Uma senhora ouviu-me a queixa. Deu-me a receita de como matá-las. Que misturasse em partes iguais açúcar, farinha e gesso. A farinha e o açúcar as atrairiam, o gesso esturricaria o de-dentro delas. Assim fiz. Morreram.

A outra história é a primeira mesmo e chama-se “O Assassinato”. Começa assim: queixei-me de baratas. Uma senhora ouviu-me. Segue-se a receita. E então entra o assassinato. A verdade é que só em abstrato me havia queixado de baratas, que nem minhas eram: pertenciam ao andar térreo e escalavam os canos do edifício até o nosso lar. Só na hora de preparar a mistura é que elas se tornaram minhas também. Em nosso nome, então, comecei a medir e pesar ingredientes numa concentração um pouco mais intensa. Um vago rancor me tomara, um senso de ultraje. De dia as baratas eram invisíveis e ninguém acreditaria no mal secreto que roía casa tão tranqüila.
Mas se elas, como os males secretos, dormiam de dia, ali estava eu a preparar-lhes o veneno da noite. Meticulosa, ardente, eu aviava o elixir da longa morte. Um medo excitado e meu próprio mal secreto me guiavam. Agora eu só queria gelidamente uma coisa: matar cada barata que existe. Baratas sobem pelos canos enquanto a gente, cansada, sonha. E eis que a receita estava pronta, tão branca. Como para baratas espertas como eu, espalhei habilmente o pó até que este mais parecia fazer parte da natureza. De minha cama, no silêncio do apartamento, eu as imaginava subindo uma a uma até a área de serviço onde o escuro dormia, só uma toalha alerta no varal. Acordei horas depois em sobressalto de atraso. Já era de madrugada. Atravessei a cozinha. No chão da área lá estavam elas, duras, grandes. Durante a noite eu matara. Em nosso nome, amanhecia. No morro um galo cantou.
A terceira história que ora se inicia é a das “Estátuas”. Começa dizendo que eu me queixara de baratas. Depois vem a mesma senhora. Vai indo até o ponto em que, de madrugada, acordo e ainda sonolenta atravesso a cozinha. Mais sonolenta que eu está a área na sua perspectiva de ladrilhos. E na escuridão da aurora,um arroxeado que distancia tudo, distingo a meus pés sombras e brancuras: dezenas de estátuas se espalham rígidas. As baratas que haviam endurecido de dentro para fora. Algumas de barriga para cima. Outras no meio de um gesto que não se completaria jamais. Na boca de umas um pouco da comida branca. Sou a primeira testemunha do alvorecer em Pompéia. Sei como foi esta última noite, sei da orgia no escuro. Em algumas o gesso terá endurecido tão lentamente como num processo vital, e elas, com movimentos cada vez mais penosos, terão sofregamente intensificado as alegrias da noite, tentando fugir de dentro de si mesmas. Até que de pedra se tornam, em espanto de inocência, e com tal, tal olhar de censura magoada. Outras — subitamente assaltadas pelo próprio âmago, sem nem sequer ter tido a intuição de um molde interno que se petrificava! — essas de súbito se cristalizam, assim como a palavra é cortada da boca: eu te... Elas que, usando o nome de amor em vão, na noite de verão cantavam. Enquanto aquela ali, a de antena marrom suja de branco, terá adivinhado tarde demais que se mumificara exatamente por não ter sabido usar as coisas com a graça gratuita do em vão: “é que olhei demais para dentro de mim! é que olhei demais para dentro de...” — de minha fria altura de gente olho a derrocada de um mundo. Amanhece. Uma ou outra antena de barata morta freme seca à brisa. Da história anterior canta o galo.
A quarta narrativa inaugura nova era no lar. Começa como se sabe: queixei-me de baratas. Vai até o momento em que vejo os monumentos de gesso. Mortas, sim. Mas olho para os canos, por onde esta mesma noite renovar-se-á uma população lenta e viva em fila indiana. Eu iria então renovar todas as noites o açúcar letal? - como quem já não dorme sem a avidez de um rito. E todas as madrugadas me conduziria sonâmbula até o pavilhão? - no vício de ir ao encontro das estátuas que minha noite suada erguia. Estremeci de mau prazer à visão daquela vida dupla de feiticeira. E estremeci também ao aviso do gesso que seca: o vício de viver que rebentaria meu molde interno. Áspero instante de escolha entre dois caminhos que, pensava eu, se dizem “adeus”, e certa de que qualquer escolha seria a do sacrifício: eu ou minha alma. Escolhi. E hoje ostento secretamente no coração uma placa de virtude: “Esta casa foi dedetizada”.
A quinta história chama-se “Leibnitz e a Transcendência do Amor na Polinésia”. Começa assim: queixei-me de baratas...

Ode à simplescidade

A noite enegrece o rio
E faz do fim da cidade,
Cujo próprio nome não comporta,
Uma inacreditável paisagem:
A estrada, o viaduto...
As obscuras águas do Paraibuna.

domingo, 17 de maio de 2009

Acróstico melancólico

Diante de tantas possibilidades na véspera
O dia parece incrível... descanso, TV, almoços, livros...
Mas com o amanhecer, o passar das horas
Incrivelmente veloz... tudo se perde no ócio
Nada é suficiente para preencher o vazio
Gastamos o tempo e não nos satisfazemos
O dia acabou. Começa tudo de novo amanhã!

A lua?






A lua é uma pedra estúpida
Suspensa no ar e girando ao redor da terra
Por que, então, cobiçadíssima por russos e americanos?

A lua é uma bola branca
Que enfeita o negro e sombrio céu
Por que, então, inspira paixões e aparecimento de seres mitológicos?

A lua é apenas uma fina forma geométrica
Quando cresce ou míngua
Por que, então, incita o humor de homens e mulheres?

Diante do Sol a brilhar, é o nada, é o frio, é o medo e a melancolia
Uma transparente sombra no azul do inverno
Portal para sonhos, ilusões, infinitas dimensões...

domingo, 3 de maio de 2009

Considerações sobre Flamengo X Botafogo

Hoje é dia de futebol, é a final do Estadual. E me encontro numa cidade do Rio... já imaginaram não é? Um bando de fanáticos flamenguistas e poucos fiéis e auto-suficientes botafoguenses respiram o tal jogo, ou seja, enchem o saco de quem não está nem aí para essa final.
Não que eu seja contra o futebol, tenho meu time de preferência e nenhum problema eu revelá-lo, esteja ele na primeira, segunda ou terceira divisão... é, isso mesmo, sou tricolor de coração, Fluminense, sim, com muito orgulho. Também me empolgo quando estamos entre os mais bem cotados do ano, também espero ansiosamente as finais das quais participamos... mas tenho certeza de que não encho o saco de ninguém por conta disso. E nem sofro. Não ganho nada, quer meu time ganhe quer meu time perca.
Quando o seu time é campeão, você ganha alguma coisa? O clube te envia algum dinheiro? Um ingresso para o próximo jogo, uma camisa, um bônus qualquer que seja? Não. Tenho certeza de que, assim como eu, ninguém ganha nada além de alegria ao ver seu time ser campeão. A não ser numa aposta entre fanáticos! Então, gente! Para que essa euforia toda? Para que tentar humilhar as outras torcidas o tempo todo? Para que as carreatas infinitas que se formam depois dos jogos atrapalhando o trânsito de quem nada tem a ver com isso? Para que brigar com a família, com o amigo de infância e com todos os outros tocedores para defender que "não, não estava impedido, esse juiz é um filho da... mãe." Claro. Coitado do juiz. Coitados dos adversários. Coitados dos que são obrigados a conviver com o fanatismo exagerado e prepotente de quem é flamenguista ou com a auto-suficiência esporádica de quem é botafoguense (E olha que nos últimos jogos o Botafogo fez dois gols contra, hein!)
Eu sou obrigada. Estou cercada de flamenguistas, vascaínos e botafoguenses fanáticos... daqueles que gritam o jogo inteiro, que brigam com qualquer um que fale mal, mesmo que seja a velha avó que não tem noção do que está falando, e que ficam (isso é o pior!) o tempo todo se achado o máximo porque onze jogadores que sequer sabem de sua existência cumpriram seus papéis na profissão que escolheram e venceram, mesmo não sendo apaixonados por aquele time (Olha que impessoal isso! O jogador defende quem o paga e não sua paixão, e os bobos torcedores o idolatram!). Deram um momento de alegria aos fanáticos. E amanhã, a vida continua igual. Os jogadores recompensados pelo traalho bem feito. E os fanáticos com o mesmo dinheiro no bolso. Quer dizer, alguns tenham talvez um pouco menos, por conta das preparações e comemorações do jogo.
Que irracional!

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Tô aprendendo a viver sem você

Venha pra perto de mim
E veja como eu estou só
Senta, não olha pro chão
A culpa não foi de ninguém, não, não
Ahh, tô aprendendo a viver sem você
Sei que o dia raiou para mim
Mas pra você tanto fez
Sei que não vou mudar sou assim
Para você sou mais um
Ahh, tô aprendendo a viver sem você
Ahh, tô aprendendo e não quero aprender
Tô voltando pro meu recanto
Lá é bem melhor
Não, não sei quem vai estar me esperando
Eu nunca vou estar só
Ahh, tô aprendendo a viver sem você
Ahh, tô aprendendo e não quero aprender
Ahh, tô aprendendo a viver sem você

Detonautas - Rodrigo Netto

terça-feira, 21 de abril de 2009

Eu também sinto com a imaginação. Todos nós sentimos.

Treinando a emoção para ser feliz, de Augusto Cury, é o livro que estou lendo esses dias, fora os de estudo e trabalho, claro. E, de repente, numa passagem me lembrei deste poema de Fernando Pessoa. Aí está o poema. Aproveitem-no para tomar cosciência de que podemos controlar nossas emoções através de nossos pensamentos. É difícil, confesso. Mas continuarei tentando.



Isto

Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.

Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.

Por isso escrevo em meio

Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!

Fernando Pessoa

domingo, 12 de abril de 2009

Coelhinhos que botam ovos de chocolate? É isso a Páscoa?

Hoje estão todos preocupados com ovos de chocolate, coelhinhos de tals... As crianças são induzidas desde pequenas a acreditar que a Páscoa significa ganhar chocolate, algumas passam anos achando até que coelho bota ovo, que é o lógico, por que ele traria ovo se não botasse? E ovos de chocolate ainda! Esse besteirol todo camufla o verdadeiro sentido da Páscoa. Ontem vi na televisão um pronunciamento dizendo que o Papa Bento XVI iria enviar ovos de chocolate para as crianças vitimadas pelos terremotos que atingiram a Itália... aí, não, até o Papa???
Será que quem for entregar os ovos vai explicar para as crianças a verdade sobre o coelhinho, os ovos e a Ressurreição de Cristo? Ou vai apenas presenteá-las com chocolates em forma de ovo e, quem sabe, alguns desenhos de coelhos ovíparos?
O simbolismo da Páscoa é interessante para que as crianças entendam o seu verdadeiro significado, mas parece que atualmente nem os adultos se lembram dele. Alguns seguem rituais religiosos, participam da procissão de Ramos, vão à Missa de Lava-pés, não comem carne na sexta-feira da Paixão, fazem vigília no sábado (ou pelo menos dizem que não vão à missa porque haverá, na verdade, uma vigília na igreja), e cumprem a missa de Páscoa no domingo. Mas será que essas pessoas conseguem assimilar o verdadeiro significado da Páscoa? Será que eles se penitenciam, analisam suas vidas, suas atitudes, seus pecados, tentam renovar sua fé, seus votos de amor, tentam imaginar e retribuir o sofrimento de Cristo ao morrer na cruz para nos salvar?
A maioria, certamente, não pensa nessas coisas. Apenas repete os rituais consagrados. Muito nem sabem o significado dos símbolos pascais, nem dos da Igreja, nem mesmo, às vezes, do coelho e do ovo.
Páscoa é ressurreição, literalmente, retorno da morte à vida. É o momento do ano agendado para que nós possamos refletir sobre nossos pecados e vícios, nos penitenciar e tentar ressurgir, ou seja, é o momento de tentar renovar nossas vidas, corrigindo o que estiver nos fazendo mal ou afastando de Cristo. Páscoa é vida nova, por isso, o ovo - indicação de uma vida que está para nascer - , por isso, o coelho - símbolo de fertilidade - .
O verdadeiro sentido da Páscoa não está relacionado à distribuição de ovos de chocolate para as crianças ou entre casais apaixonados, e nem mesmo ao cumprimento dos ritos católicos passo a passo. A Páscoa é um momento de reflexão interna, é um agendamento anual para que todos sejam motivados a refletir sobre o seus vícios, seus erros cotidianos, seus males interiores... é momento de voltar-se para si e renascer para o mundo, procurando ser uma pessoa melhor!
Que todos sejam capazes de renascer nessa Páscoa!

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Amigos também dizem "eu te amo"!

Voltando ao assunto do Senai, agora com relação aos meninos... Eram onze meninos quando entramos (Nossa! Quanto tempo faz isso, meu Deus!), no decorrer do primeiro ano, fomos abandonados por um deles, o CDF que passou em 1º lugar na prova de seleção e que, por sua mudança de vida radical, merece uma crônica só para si. A gente ainda não sabia, acabávamos rotulando como um "inadaptado", mas já havia nele um artista latente - assunto para outra ocasião. Passamos a ter dez meninos na turma. Meninos de todos os tipos, mimados, rebeldes, sofridos, mineiros (hahaha), estudiosos, machistas... ainda estávamos naquela fase em que os meninos da turma não são vistos como possíveis pretendentes porque sempre os achamos imaturos. Já perceberam como as meninas se interessam sempre pelos garotos das turmas mais adiantadas (Do 5º termo, nesse caso!) e, raramente pelos da sua própria turma? Pois é, estávamos nessa fase, o que significa dizer que eles eram amigos para nós, apenas.
Convivíamos bem, eles eram muito amigos entre si e nós éramos amigas deles de modo geral. Com alguns nos desentendíamos de vez em quando, com outros nos divertíamos sempre e compartilhávamos momentos de diversão fora da escola. Entretanto, havia um diferente. Mas, ao contrário do que vocês podem estar pensando agora, não, ele não era gay. Era uma pessoa maravilhosa, que convivia bem com todos de todas as turmas, aquele cara que conversava com todo mundo, que se divertia com tudo, que nunca estava de mal-humor, aquele que conhecia bem cada pessoa de sua convivência e era capaz de compreender as diferenças e respeitá-las. E não era também um "rufião"! Lembram disso?
Inevitavelmente, virou a nossa (das meninas) companhia mais frequente entre os meninos da turma, ele estava sempre conosco, sempre mesmo, inclusive se escondia de vez em quando no nosso banheiro para "morcegar". E sua presença era sempre muuuito benvinda porque ele era realmente um cara especial. Gostávamos de sua companhia. Em certo momento, seus cabelos que cresceram junto com a gente, era um belo disfarce. Certa vez, nossa diretora entrou no banheiro para "fiscalizar" o que estava acontecendo e achou que era uma menina no box por causa dos seus longos cabelos... Hahaha. Nossa amizade com ele era tanta que frequentávamos sua casa e ele a nossa, coisa que na época, não era muito comum. E os namorados nem tinham ciúme dele.
Hoje em dia, ele mora distante da maioria de nós, formou-se, está trabalhando, namorando sério e pensando em se casar. Vem a Três Rios sempre no final do ano e matamos um pouco da saudade. Cada vez que nos encontramos com ele, é como se nada tivesse mudado, é a mesma amizade, o mesmo carinho... nos falamos de vez em quando pela internet, e outro dia, estávamos, eu e ele, comentando sobre o tal encontro das meninas que descrevi num texto anterior, ele morreu de rir e conseguiu acertar direitinho o que aconteceu porque conhece muito sobre nós. Além disso, se identificou com algumas de minha dúvidas.
Combinamos que no final deste ano faremos uma festa para reunir a turma, comemorar entre nós o seu casamento (Se realmente acontecer até lá!) e celebrar os 15 anos de nossa amizade. Se der tudo certo, será realmente maravilhoso, encontro inédito, nunca conseguimos reunir todo mundo desde a formatura... Mas o mais importante daquela nossa conversa MSN foi lembrar como é possível uma amizade sincera entre homens e mulheres, como é bom relembrar momentos felizes, e como amigos podem, devem e dizem, sim, que amam uns aos outros... ele me disse de novo nesse dia. Fiquei super emocionada. E retribuo, novamente, mas agora, em nome de TODAS as meninas da turma de 1994 do CFP Três Rios: Alison, nós amamos você!

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Finalmente um vencedor pensante!


Acho que nunca fiquei tão satisfeita com uma vitória do BBB. Finalmente, o Brasil escolheu, ainda que por uma diferença mínima, um brother pensante! Maximiliano, nome nobre , dono de tatuagens significativas (maximize-se e minimize-se), jogador assumido, racional, perfeccionista... frio? Se fosse, não teria se encantado tão depressa pela fofura de Francine... e não teria representado ao lado dela o casal mais... carinho, mais... compreensão, mais... amor mesmo, de todos que eu já vi no BBB. Não parecia para nós, o público, nem que era um casal arranjado para conseguir pontos no jogo, nem que era paixão física, daquela que passa quando um dos brothers deixa a casa ou descobre num terceiro brother algo mais interessante, como já vimos muitas vezes acontecer. Amor de verdade se percebe na boa convivência, sem o sofrer da paixão.
Precisamos de muitas edições, nove, para ser mais precisa, mas conseguimos ver alguém que não era estereotipado vencer o BBB, não era pobrezinho, nem caubói, nem fortão, nem alguém que veio do interior, nem carregava qualquer outro tipo de rótulo. Max é um cara comum, um jovem urbano que, como muitos outros, venceu as dificuldades que a vida apresentou, assumiu a personalidade que tinha, independente da aprovação dos outros, e escolheu ser o jogador, quando todo mundo disfarça e quer fazer exatamente o contrário... deixar o jogo levar! Um cara extrovertido, superando o adolescente tímido que foi, alguém de quem a vida cobrou muitos passos corretos porque não havia tempo de corrigir se houvesse erro, por isso, um perfeccionista que não se permite a perda... como muitos de nós.
Não que a Priscila não merecesse, ela também se mostrou muito mais do que o rótulo que recebeu, mas ainda assim, se fosse vencedora, carregaria o rótulo. Vale lembrar que todas as vezes que ela, Priscila, votou em Max, justificou usando o argumento do jogador, "ela vestiu um personagem, ele não é assim, e eu acho isso errado". Foi exatamente isso que o fez vencedor. Ele é assim, sim, tem objetivos claros, traça estratégias, luta por seus ideais, mas sem perder a ternura, o bom coração, sem deixar de lado a emoção, a brincadeira, o amor... como muitos de nós.
Parabéns, Max! Parabéns, Brasil, por estar mostrando certa consciência, ainda que através de um reality show, tão criticado por todos como cultura inútil. O BBB está, pelo menos, ensinando o povo brasileiro a valorizar quem realmente tem valor, quem faz por merecer.

terça-feira, 31 de março de 2009

Homenagem ao Herbert - Saber amar


A crueldade do que se é capaz
Deixar pra trás os corações partidos
Contra as armas do ciúme tão mortais
A submissão às vezes é um abrigo

Há quem não veja a onda onde ela está
E nada contra o rio
Todas as formas de se controlar alguém
Só trazem um amor vazio

O amor te escapa entre os dedos
E o tempo escorre pelas mãos
O sol já vai se pôr no mar
Saber amar
É saber deixar alguém te amar

sexta-feira, 27 de março de 2009

Nasci no dia 27 de março...


Estou cansado de ser vilipendiado, incompreendido e descartado... meu orgulho me deixou cansado, meu egoísmo me deixou cansado e minha vaidade me deixou cansado... eu não me perdi, e mesmo assim você me abandonou, você quis partir e agora estou sozinho...

vai, se você precisar ir, não quero mais brigar essa noite, nossas acusações infantis e palavras mordazes que machucam tanto não vão levar a nada como sempre... quem diz que me entende, nunca quis saber... mas vou me acostumar com o silêncio em casa... já brigamos tanto, mas não vale a pena... vou ficar aqui, com um bom livro ou com a TV...

acho que não sei quem sou, só do sei do que não gosto... eu vejo o que aprendi, o quanto te ensinei... eu sei... palavras são erros... não quero lembrar que eu erro também... o tempo todo estou tentando me defender... porque me quebraste em mil pedaços...

acho que você não percebeu que o sorriso era sincero... já que não me entende, não me julgue... eu não minto, eu não sou assim... hoje não estava nada bem... tenho andado distraído, impaciente e indeciso, e ainda estou confuso, mas agora é diferente... são as pequenas coisas que valem mais...

eu quis você e me perdi... já me acostumei com a tua voz, com teu rosto e teu olhar... sei que não tenho a força que tens... acho que só agora eu começo a perceber que tudo o que você me disse, pelo menos o que lembro que aprendi com você, está realmente certo... gosto quando sorris pra mim... gosto de ver você dormir que nem criança, com a boca aberta... vem e me diz o que aconteceu, faz de conta que passou...

ainda que eu falasse a língua dos homens e falasse a língua dos anjos, sem amor eu nada seria... o meu coração já não me pertence... quero me encontrar, mas não sei onde estou... por que esperar se podemos começar tudo de novo agora mesmo? aprendi a perdoar e a pedir perdão... venha, meu coração está com pressa... nosso futuro recomeça... estou pensando em casamento... e até que é fácil acostumar-se com meu jeito... eu quero fazer tudo por você...

e quando você voltar, tranque o portão, feche as janelas, apague a luz e saiba que te amo.



(Todos os versos são de Renato Russo.)

quinta-feira, 26 de março de 2009

Discussões literárias...

Ser ou não ser moderno: uma questão de eternidade

Daniela Samira da Cruz Barros

As denominações dadas às correntes literárias existentes parecem-nos apropriadas, visto que visam sintetizar as ideias propostas pelos autores da época ou, pelo menos, representar, da maneira que for, os estilos vigentes. Entretanto, uma dessas denominações parece destoar.
Ao misturar Literatura e cronologia, o Modernismo limitou as novas denominações surgidas posteriormente. É bastante claro que ao chamado “espírito de época” (Que pode ser traduzido como o sentimento comum da sociedade, o qual gerou tais manifestações artísticas.) se encaixava perfeitamente o termo “modernista”, os artistas queriam mesmo romper, efetivamente, com tudo que vinha sendo tradicionalmente pregado há anos, sugerindo modernizar a arte. Foi feito. Conseguiram. A Semana de Arte Moderna de 22, por exemplo, não poderia ter outro nome. Era mesmo uma nova arte, um “jeito” moderno de ver as coisas; tão moderno que causou muita repulsa – o novo sempre assusta e escandaliza. Daí a grande repercussão da Semana, garantindo a efetivação do caráter modernizador dos projetos ali apresentados.
Se aquela Literatura de 1922 era moderna, estamos fadados à prisão àqueles moldes? O Modernismo não é o grau máximo que algo pode atingir? Os autores, por exemplo, posteriores aos Andrades de 22, Drummond ou Vinícius de Moraes não são modernos?
A primeira relação que se pode traçar entre Modernismo e tudo o que vem depois dele é a relação continente/conteúdo. A partir do Modernismo tudo parece ser moderno, tudo parece estar incluso naquele “jeito novo de ver as coisas”, não apenas pelo caráter destruidor e construtor, respectivamente, assumido pelos modernistas, mas pela sugestão de finalização de um processo que a nomenclatura adotada sugere.
O “espírito de época” imediatamente subsequente ao Modernismo foi chamado, sem qualquer criatividade e confirmando a limitação imposta pela nomenclatura cronológica, de Pós-Modernismo. O que é muito lógico, o que vem depois do Modernismo é pós-moderno. Mas, em que sentido? O Pós-Modernismo não se caracteriza individualmente, precisa traçar um paralelo com seu estilo-origem? A fragmentação da Literatura, por exemplo, foi tão grande que não se pode agrupar mais, possibilitando uma unificação nominal? E, por isso, adotar um nome cronológico é mais simples?
O Pós-Modernismo no Brasil não sugere algo completamente independente, pelo contrário, inclina-se, às vezes, a uma continuidade do Modernismo, visto que se caracteriza ora por manifestações representando muitos passos adiante do Modernismo, ora representando um retrocesso. A prosa pós-modernista, por exemplo, aprofunda uma tendência já trilhada pela geração de 30, buscando uma literatura intimista, introspectiva. O regionalismo, também já iniciado, adquire novas dimensões, mas não chega a romper com “antigas tendências modernas”.
A Poesia Concreta, que também é pós-modernista – pois vem depois do Modernismo (Mais uma vez podemos perceber a ineficiência da nomenclatura cronológica.) – traz traços modernos visto que rompe com padrões, alguns dos quais, inclusive, já haviam sido alvo da geração de 22. O rompimento com o verso tradicional, por exemplo, foi uma questão bastante relevante para Oswald de Andrade. No entanto, somente com a Poesia Concreta é que revolucionou-se efetivamente o modo de construção da poesia. Seria, então, a Poesia Concreta o real amadurecimento dessa ideia? Sendo assim, a Poesia Concreta é Moderna, certo?
Por outro lado, a partir do momento em que o Concretismo pôs em prática, no grau mais elevado possível, essa ruptura com o verso tradicional, acabou por sugerir algo realmente novo (Ou moderno, olha aí o problema outra vez!), que é uma exigência da participação ativa do leitor no processo de construção da poesia. O leitor é co-autor do texto, já que este permite uma leitura múltipla.
Assim, numa comparação entre a produção dos autores modernos – de quaisquer épocas – , a dos autores pós-modernos e também a dos concretistas, podemos concluir que, depois do Modernismo, com toda aquela história de rupturas, novidades, choques e escândalos artísticos, nada mais deixou de ser moderno. Talvez pela infelicidade do nome, talvez pela força das inúmeras tendências sugeridas na década de 20 e amadurecidas cada uma em seu tempo, umas com Drummond na Segunda Geração, outras com Guimarães Rosa no Pós-Modernismo, e outras ainda com os irmãos Augusto e Haroldo de Campos, na Poesia Concreta.
Tamanha associação entre os estilo literários nos faz questionar até que ponto essa situação de amadurecimento das ideias lançadas em 22 será pertinente. Até quando? Pós-modernos, concretistas, praxistas, contemporâneos, serão todos uma extensão dos modernistas? Será o Modernismo, mesmo que renomeado, o estilo eterno?

domingo, 22 de março de 2009

Filhos? Marido? Melhor não tê-los... pelo menos por enquanto.

Depois de doze anos, reunimo-nos ontem: as meninas da última turma do CFP/Senai. Nossa experiência no conhecido Senai da Rede Ferroviária Federal foi muito além da formação profissional, que, aliás, nenhuma de nós seguiu: somos professoras, bancárias, policiais, economistas... mas nenhuma mecânica, metalúrgica ou eletricista, certamente. As amizades que conquistamos nos três anos de Senai ficaram mesmo marcadas em nossa vida. Apesar de todo o tempo que passou, é como se soubéssemos tudo sobre as vidas umas das outras. Parece que somos íntimas tanto quanto éramos quando os nossos queridos amigos meninos nos trancaram no banheiro e jogaram a chave fora (Acreditem se quiser!) Inclusive as rivalidades se mantiveram, vez por outra é possível notar uma espetadinha aqui, um comentário maldoso ali... não tem jeito, somos humanas. E mulheres!
Uma novidade nesse encontro foi, sem dúvida, a criançada, em doze anos, são nove crianças, das quais, sete se fizeram presente. Isso significa que nesse tempo foram alguns casamentos... apenas duas de nós não se casaram e não tiveram filhos. E eu sou uma delas. Confesso que me senti uma estranha no ninho quando percebi que quase todas tinham seus maridos (E suas reclamações sobre o casamento, claro!) e seus filhos, lindos, por sinal, cada um refletindo uma coisa ou outra da mãe... fiquei meio deprê quando saí de lá.
Na verdade, não acho que eu esteja atrasada, escolhi outro caminho, que nenhuma delas seguiu, eu sei, talvez por isso eu tenha "ficado para trás". Mas não sei se foi esse sentimento de "eu podia ter uma rotina assim, mas não tenho" que me deixou meio melancólica. Foi exatamente o contrário, talvez a pergunta "será que eu quero ter uma vida assim algum dia?".
Vi pelo menos dois maridos "atrapalharem" nosso encontro, um acabou apressando o fim do encontro porque a mulher resolveu ir embora e "fechou a nossa conta", o outro chegou constrangendo a esposa por não concordar com o tratamento que ela dava ao filho, e ainda teve um outro que telefonou para perturbar. Ouvi uma dizer que já desistiu, às vezes tenta, mas ele não colabora, então acha difícil voltar a viver bem. Ouvi duas outras comentando que depois dos filhos o amor pelo marido parece diminuir e uma outra concordando e corrigindo: "parece, não, diminui, com certeza".
Complexo, como diria um amigo. Fiquei confusa. Não sei o que pensar sobre isso. Será que a minha melancolia é por qual motivo? Porque queria ter uma nova vida, com preocupações de esposa e mãe. Será que minha vida está muito vazia e teria mais sentido se eu tivesse um marido e filhos? Será que gosto de ser livre e poder fazer o que eu quiser sem me preocupar em cuidar de alguém? Será que quero me casar, ter filhos e depois achar que não tenho mais meu marido, mas somente o pai dos meus filhos ao meu lado? Será que quero nunca mais ter uma noite de sono tranquila porque estarei eternamente preocupada com as crianças, mesmo depois que elas tiverem suas vidas independentes? E será que colocar filhos nesse mundo tão injusto não seria puro egoísmo? Apenas para sustentar nosso ego, satisfazer nosso desejo de ser mãe?
Hummm. Difícil decisão. Mas, pelo menos por enquanto, acho que prefiro os vazios de vez em quando e a sensação de que nada faz sentido, a preocupação com meu trabalho ou com o doutorado, com malhação para manter o corpinho de 20, e com as baladas no fim de semana...
Quando uma das amigas me cobrou que estava na hora de providenciar o meu bebê, eu respondi que meu primeiro filho será minha tese, daqui a uns dois anos. E até lá, decido se entro para o rol ou não.
Por enquanto, fico conhecida como a encalhada da turma. Tudo bem, não me ofendo!
"Não, meu coração não é maior que o mundo, é muito menor. Nele não cabem nem as minhas dores, por isso gosto tanto de me contar!" (CDA)